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segunda-feira, 4 de julho de 2011

A IGNORÂNCIA LINGUÍSTICA* / Por Profª. Márcia Regina


O livro “Por uma vida melhor” distribuído pelo MEC ganhou um grande espaço na mídia brasileira, tanto nos jornais como em revistas, nos últimos dias foram publicados depoimentos e vários artigos girando em torno da polêmica do ensino da Língua Portuguesa. Chegamos a ler coisas como “o assassinato da Língua Portuguesa, o livro que tolera “erros gramaticais”, os estragos na aprendizagem e finalmente que o livro tem potencial para piorar a existência de meio milhão de brasileiros. Será mesmo verdade? Precisamos refletir um pouco sobre o que está por trás de todas essas vozes.
Todos nós cidadãos brasileiros e falantes nativos do Português sabemos da grande dicotomia que há entre a língua falada e a língua escrita, entre o Português culto e as variedades linguísticas existentes em todo o Brasil, o que é notório e sabido passa a ser encarado como “estragos”. Lendo o capítulo todo do livro observamos que os autores não estão ensinando ou incentivando a falar errado, apenas registram diferenças no falar, uma constatação linguística das diferentes variedades da Língua Portuguesa.
Segundo Cristovam Buarque, ex-ministro da educação, o livro passa a ideia de que não faz mal falar errado, de que não é problema falar de uma maneira diferente da convencional, ledo engano, o que o livro tenta demonstrar é que a noção de “errado” está ultrapassada e que todos nós falantes brasileiros em algum momento da nossa vida falamos de maneira diferente da maneira convencional, mesmo as pessoas com grande escolaridade nos momentos de informalidade falam o português não-padrão. O apartheid Linguístico do qual se refere o o ex-ministro na revista Língua Portuguesa do mês de Maio/2011 sempre existiu e não é com esse sistema escolar que temos hoje que irá desaparecer.
Talvez a reflexão perpasse sobre o estudo das diversas variedades da nossa língua, enquanto professores de Língua materna precisamos mostrar ao nosso aluno que temos diversas formas de nos comunicar, seja na modalidade oral ou na modalidade escrita e principalmente que para não sermos sujeitos do preconceito linguístico que é também social, precisamos ser poliglota dentro da nossa própria língua e então ao invés de  seguirmos a otica de que os alunos brasileiros ficarão na “ignorância linguística” simplesmente por conta da mudança em encarar o estudo da Língua Portuguesa, passássemos a admitir que existem diversas formas de falar e que cada uma delas deve ser usada conforme a situação de uso efetivo da língua. As letras de algumas músicas nordestinas, como “pisa na fulô” cantada por Zé Dantas e Luiz Gonzaga e difundida em todo o Brasil, é um grande exemplo que não existe essa influência nefasta em reproduzir uma estrofe escrita e pronunciada de forma diferente do Padrão.
Enquanto professores de Língua Portuguesa sabemos e bem a responsabilidade em permitir aos alunos o acesso à Língua Padrão e isso se faz principalmente com a análise e a reflexão do não-padrão, fazendo com que eles entendam que precisam adequar a modalidade da língua ao objetivo que pretendem alcançar e com isso se tornar um falante mais independente da sua própria língua.
*Márcia Regina Mendes Santos,
Mestre em Linguística e Profª da Universidade do Estado da Bahia – Campus XVI Irecê.

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